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UMA
CARTA DE AMOR
Cláudia Villela de Andrade
Itatiaia, 15 de junho de 2002
Meu
amor,
Estou no alto desse mirante,
hipnotizada pela paisagem que se
revela, exatamente como uma janela, criada
para que eu possa, enfim, constatar o meu
amor. Minúsculos pontos verdes, como um
tapete, cortado por um longo e poluído
rio e meu coração, a dizer encantos.
Pela primeira vez, pego-me pensando em você
com mais intensidade. Mais profundidade. Não
um simples lembrar. É um pensar
diferente, dessa vez. Um pensar com
necessidade, com um sorriso no canto dos lábios.
Com tanto afeto que chega a
arrepiar o velho e bom estômago.
Exercitá-lo com aquele frio que desce e
sobe, sufocante e revelador de emoções
que há muito não aconteciam. Um pensar
que busca nos labirintos da vida uma
imagem, bonita, por vezes amarga, cansada,
mas que eu apalpo com gosto. É. Não me
importo com todo esse cansaço desde que
você descanse, depois, em meus braços.
Nesses braços que não sabiam da vontade
de dar esse forte e afetuoso abraço.
Gosto tanto que não tinha dado
conta disso e, nem sabia que estaria aqui,
agora, com vergonha dos meus próprios
pensamentos. Sentido-me uma boba
adolescente de fitas no cabelo . Como se
eu não merecesse essa felicidade de
sentir. Gosto tanto que redescubro
mais do que deveria, talvez, pois, na
minha idade, essas paixões são
perigosas. Quase nunca se concretizam.
Guardam apenas sonhos e embalam ilusões
que não tomam forma.Isso não é característica
da velhice, mas do momento em que a
inquietação dá lugar a sobriedade e
todos os nossos conflitos estão
resolvidos ou calados para sempre.
A
verdade é que não estou, nem um pouco,
importando-me se, nesse momento, você está,
também, pensando em mim. Ando me bastando
para certas felicidades. Depois de tanta
solidão, acostumei-me comigo. Só não
queria ter perdido o contato com a
emoção e, estou feliz, em saber que não.
Não perdi ainda a capacidade de encontrar
a flâmula pequenina do amor
sinalizando com tanta euforia . A dizer
que, a qualquer momento, a vitória pode
acontecer. Mas tenho que confessar que, se
você pensar em mim, um pouco que seja,
sentirei-me "adolescida". Quem
sabe as nossas asas possam voar
juntas daqui de cima a efetuarem um pouso
certeiro naquela paisagem , lá embaixo ?
Seria bom terminar o vôo com você ao meu
lado e começar outros...e outros.
Espero não
ter deixado a minha ansiedade transparecer
nessas poucas linhas, nem intimidações e
constrangimentos quero criar com essa
revelação. Não é minha intenção. Só
estou escrevendo por achar que não tenho
mais tempo, nem necessidade de esconder
amor no fundo do meu fruto. Seja, então,
o que melhor puder ser. Rasgue minha carta
e ignore o meu acalentado gesto de paixão
ou, então, sinalize-me com os olhos,
farol que se tornou do meu mirante,
que saberei lê-los com sensatez e
apreciação. Apenas uma última consideração
eu quero deixar aqui registrada:
Meu amor é dos grandes, tenha certeza,
portanto, o respeite, que isso, para mim,
já será bom.
Com afeto,
Claudia
Claudia
Villela de Andrade
clavill@prosaeverso.com
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Edição
musical de Udo Erwin Franz
Humancat
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