SEMPRE

Cláudia Villela de Andrade






Acabou.

Tão fino como a linha no fim do mar. Branca, horizonte transversal dos olhos. Frágil, final. Aguda. Tão alma que mais prisioneira. Tão corpo que mais curva tivesse... e mais massa palpável sentisse. Tênue. Tão dois que um só. Tão um que ficamos pra lá, pra cá. Como se nunca tivesse sido  sempre. No ritmo do balanço sem impulso. Sem os pés. No ar. Tronco carregando o peso. E o peso...a cabeça trata de deixar leve.

Acabou, mas ainda estamos aqui, guardando o tempo. Aguardando a chegada da nossa alvorada. Respirando a coragem de encarar a verdade. Um alisando  o outro e  os dois, através das lágrimas, compreendendo a inutilidade do engano.

Acabou.

Os passos do lugar andam dobrados, porque as noites já não são contas de cristais e Romeu não conhece as minhas veredas, nem alcança a janela do meu quarto. Não morre por mim, nem me deixa nua, junto à  cotovia.

Acabou.

O grito que eu dou é o de compreensão. Sem aflição nem injustiça, sem precisar trocar perdão.

Lavo esse chão com coerência, mas  preferiria espernear, sofrer, blasfemar,  implorar, sabendo que a volta se encaixaria na nossa história, entre nossos lençóis e tatuagens, envoltas nas lembranças das noites dos tempos, para sermos novamente a terra fecundada pela volúpia.

Eu  preferiria compartilhar  para sempre, mas esse sempre me desmente. Sempre fica tão rente a razão, tão inevitavelmente presente, que  corre  ligeiro, sem me dar tempo de entender o mecanismo  desse labirinto.

Não foi engano, não foi confusão. Não houve troca. Só não foi eterno, simplesmente.

Dissemos que seria, até juramos. Concordamos. Confiamos, mas... também não sabíamos a extensão desse  “sempre” e, agora, ele está marcado, como se  fosse o final da trilha. Como se o agora fosse o tal sempre.

Poderíamos fingir não  existir  derrota. Nem  impotências, nem saudades. Então, eu  ficaria aqui plantada eternamente, mas jamais seria terna outra vez e todas as palavras delicadas desapareceriam de nossas bocas. O doce... amargo tornaria. 

O sempre seria tão enorme que a razão da vida se dissolveria e nós poderíamos virar flores secas,  sem memória, decompostas  pelo passar das horas. Não pisaríamos mais nas folhas do outono e toda a paisagem se turvaria como num álbum de fotografia antigo.

Queria que  o sempre nos protegesse do agora, nesse momento transitório, e que meu coração pudesse sufocar o deslize da agonia. Dessa aflição de compreender que o sempre não existe e que, se por acaso deixarmos ele existir, com medo das mudanças, ele vai escorrer em desperdício no imaginário mundo do como seria. E seria sempre um desgosto, ansioso e angustiado.

Acabou.

Vamos guardar o silêncio do amor no ímpeto da paixão que passou  e colher lembranças em tranças da memória, porque assim, de nós, guardaremos a verdade. Assim nenhum de nós será efêmero e viveremos felizes. Para  sempre.

    

Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com

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04.10.2002