REALIDADE VIRTUAL Cláudia Villela de Andrade O que sou pra você? Sou apenas versos e tenho muitas prosas. Sou a palavra escrita na tela do computador. Não me olha, não me toca, não me ouve. Só me lê. Só me aplaude . Não revelo meu segredo. Não ficamos juntos vendo o mar. O telefone mal toca vez ou outra. Quando toca! É sempre profissional. É só, olá, como vai ? Até logo. Ouço sua voz e a distância compactua com os fios, compasso armado do progresso. No telefone a timidez nos alcança justamente por conhecermos melhor nossas letras que nossas vozes. O windows nos anuncia com mais freqüência Seu e-mail chegou. Mudou a fonte. Mudou a cor. Fico feliz. E a palavra escrita continua a ser linear. O que sou? Quem é você? Queria ficar perto, tomar um vinho, ouvir um som, jogar baralho. Vejo sua fotografia, será mesmo você? Imagino o seu dia. Não, nem sabe do meu. Nem perguntou. Num porta-retrato posso ter sua imagem, mas... diriam: enlouqueceu. Nem conhece, nem toca, nem convive. Sabe um nome, um nick, e ...nada mais. Eu me pergunto, que amizade é essa? Existirá uma amizade assim? Poderemos fazer disso realidade consistente? Já andei me estrepando por aí... E você, se pergunta também? Sentimos a mesma coisa? Nem disso falamos. Nunca falamos. Só escrevemos . Dizer, vamos sair, seria trocar de chat, trocar de lista? Vamos continuar a ser prosa e verso nessa rede sem início nem fim? Tem que ser assim? E quando nos desentendemos, nos deletamos simplesmente? Será? Cláudia Villela de Andrade clavill@prosaeverso.com
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