
O FOFOQUEIRO Claudia Villela de Andrade
Eu nunca pude fazer nada de errado sem ser descoberta. Nunca. Não era por falta de esperteza. Não era. Eu era astuta até demais da conta. Mas bastava fazer alguma coisa errada e... pimba, eu era descoberta. Na adolescência, era uma encrenca. Uma mentirinha aqui. Outra ali. Quando eu menos esperava, era desmascarada pela minha mãe. Sempre acusei o seu anjo da guarda de fofoqueiro. Ele era o culpado. Contava tudo. Nos mínimos detalhes. Eu tinha verdadeiro horror do anjo da guarda da mamãe. Eu perguntava a ela: — Quem te contou? Ela dizia: — Meu anjo da guarda. Sopra-me ao ouvido durante a noite, enquanto durmo. — Que horror, ser soprada por um anjo fofoqueiro. Maledicente. À toa. Ele não tem o que fazer no céu ? Vem aqui criar caso comigo, por nada. Nunca fiz nada de ruim para ele. Depois, fui crescendo e notei que o danado do anjo me perseguia. Não era apenas com mamãe que ele me dedava. Comecei a perceber que em tudo era assim. Se esquecia a carteira de motorista em casa, o guarda me pegava na rua. Se entrava em algum lugar que não devia, encontrava alguém que não podia encontrar. Se queria me esconder, aí é que eu aparecia. O mundo começava a ficar pequeno para nós dois. A pior das situações me aconteceu quando eu viajava escondida de um namorado, com outro, é claro, pois andava com muitas dúvidas sobre a relação e resolvi dar um tempo. Disse que ia visitar minha irmã em Brasília. Mentira grande. Fui, na verdade, para Macapá. Dei de cara com a irmã do dito cujo no aeroporto de lá. Eu não acreditei. Em Macapá? Esse anjo fez isso comigo? O que aquela infeliz estava fazendo em Macapá? Ninguém vai a Macapá. Só eu. Eu fiquei branca. As pernas tremiam. Não havia desculpa. Fiquei com a maior cara de tacho da história da minha vida. Por trás da figura da moça pude ver a gargalhada do anjo. Ele ria de dobrar-se inteiro. Fiquei sem voz. Ela, percebendo a minha situação ridícula, sorriu debochadamente e foi embora. Corri ao primeiro telefone que encontrei e terminei o namoro, rápido feito uma flecha, mas depois... nossa, ouvi muitos desaforos. E ainda fiquei sem o namorado. “Quem tudo quer tudo perde”, disse o anjo à minha mãe. —Dedo duro! Dedo duro! Dedo duro! respondia amuada. Quando mamãe morreu, eu pensei, agora ele vai com ela. Vai embora para o céu e me deixará em paz. Ledo engano. Ele ficou pior. Acho que sofria de solidão, então, pegava no meu pé, direto e reto. Se antes eu já reclamava, depois ficou muito pior. Às vezes, lia meus pensamentos. Sim, até meus pensamentos errados eram sacudidos como o liquidificador. Nem pensar errado eu podia e, indignada, eu lhe perguntava: — Onde você acha que anda o meu livre-arbítrio? Isso é abuso de poder. Deus vai saber disso tudo, eu ameaçava. Não adiantava mesmo. Acho que ele fingia que não escutava. Não me dava a menor bola. Nunca deu. E até hoje em dia é assim. Tenho que pensar dez vezes antes de pensar errado. Quando o pensamento é mais rápido, me desculpo e volto atrás. Aí, penso o jeito certo. Só assim, ele me dá sossego. Pensar bobagem ou fazer alguma coisa escondida, nem pensar! Já desisti há muito tempo. Não adianta. Passo vergonha quando descobrem. Então, não faço mais. Muitas vezes, pego-me pensando nesse anjo e, hoje em dia, ele não me aborrece tanto assim. Aliás, começo a achar que, ultimamente, ele tem me salvado de muitas situações de risco. Só a minha vida, ele já salvou várias vezes em acidentes estranhos de forma mirabolante ou fantástica, me deixando sair ilesa. Foram várias vezes e isso me fez ter certeza da sua presença. Porém, sempre que isso acontece, sinto duas coisas que nunca pude esquecer na vida: o cheiro e o gosto da minha mãe. Trago na minha lembrança o perfeito olfato e paladar da minha genitora. Como se eu ainda fosse o seu bebê. Começo a achar que o anjo fofoqueiro, na verdade não era o anjo da guarda da mamãe. Era, sim, meu próprio anjo da guarda aparando-me as arestas, nas horas mais precisas. Quer saber? Já esqueci o passado. Vou deixá-lo trabalhar em paz. Mesmo fofoqueiro, tudo valeu, de alguma forma. Valeu muito. E eu nem faço mais tanta coisa errada assim. — Psiu! Será que ele ouviu essa mentirinha? Cláudia Villela de Andrade
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