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O Casaco de Couro
Claudia Villela de Andrade
Ele procurava pelo irmão mais velho há mais de vinte e cinco anos...
Numa tarde, depois do almoço de domingo, seu irmão Manolo discutiu feio com o pai. Os dois viviam às turras. Por quase nada desencadeavam coisas do passado, gritavam, xingavam e, por vezes, o pai batia em Manolo que apanhava sem revidar.
Mas neste domingo foi diferente. Depois da briga, Manolo foi até o quarto, pegou seu casaco de couro, afagou a mão no cabelinho do irmãozinho e saiu pela porta da rua. Saiu sem dizer uma única palavra e nunca mais voltou. Nunca mais souberam dele.
Três dias depois, o pai foi aos hospitais, delegacias, colocou até anúncios nos principais jornais à procura do filho desaparecido, mas nada. Nenhuma notícia do filho mais velho. Muitas vezes o velho sentava-se na cadeira de balanço da varanda e olhava fixo para a esquina da rua à espera de que o filho aparecesse de repente. A noite caia e nada... Maria, a empregada da casa, os chamava para jantar e os dois sentavam-se à mesa olhando as duas cadeiras vazias. A cadeira da mãe que partira momentos depois do parto do filho menor e a cadeira de Manolo. O pai mandava que Maria colocasse sempre o prato e o talher do irmão. Ele dizia que um dia Manolo voltaria.
Os anos foram passando e o filho caçula foi crescendo sempre com aquela última lembrança do irmão afagando-lhe a cabecinha tão carinhosamente, apesar de ter acabado de sair de uma briga com o pai. Com o tempo ele foi esquecendo da voz de Manolo. Às vezes fazia força para lembrar o tom, mas não adiantava. A voz do irmão fugira-lhe da memória. Ele não entendia ainda bem os motivos que levavam Manolo a brigar com o pai. Ainda era muito pequeno e não compreendia. O fato é que o velho se dava muito bem com ele. Nunca brigavam.
Mais tarde, até entendeu que isso acontecia porque o velho tinha medo de ficar sozinho. Já havia perdido quase tudo na vida. Não poderia arriscar a ficar sem o filho menor. O filho que sua esposa fez questão de ter apesar da idade avançada e consciente dos riscos que seria a tal gravidez. Manolo já tinha vinte e cinco anos quando o irmão caçula nasceu e saiu de casa naquela tarde, deixando o irmãozinho com quatro anos apenas.
Uma noite, o pai chamou seu caçula no quarto. Pediu que ele fosse até a casa do médico da família e o chamasse. Depois, pediu que ele trouxesse também o padre da igreja do bairro. Assim ele fez, mas quando voltou com os dois, o pai já estava nas últimas e o médico não pode fazer quase nada. O padre ainda conseguiu dar-lhe a extrema-unção. Depois, o velho segurou a mão do rapaz e pediu-lhe que nunca deixasse de procurar seu irmão mais velho. Que fizesse daquele seu último pedido uma missão para toda vida. O rapaz prontamente aceitou a missão e no dia seguinte enterrou seu pai ao lado da mãe no cemitério local.
Ele continuava sua busca incansavelmente, porém parecia que Manolo havia se desintegrado no ar. Não havia nenhuma pista dele.
Casou-se e continuou morando na mesma casa, pois Manolo poderia voltar e não encontrar mais ninguém da família.
Um dia, sua bela esposa chegara em casa com um presente para ele. Um lindo casaco de couro preto, desses antigos, dos anos sessenta, comprado em loja de roupa usada. Feliz, logo vestiu a peça e foi sentar-se na sua cadeira da varanda à espera do jantar. Assim como seu pai fazia, ele também tomava conta daquela esquina todos os dias. De repente, fechando os olhos, sentiu que o tal casaco de couro o abraçava apertado, mas ternamente como quem fizesse carinho nas costas, nos braços, no peito. Assustado, respirou ofegante e imediatamente lembro-se do irmão a pegar o casaco de couro no quarto e afagar-lhe os cabelinhos no infeliz dia de sua partida. Era um casaco como aquele. De couro preto, anos sessenta. Jogando a cabeça para trás compreendeu que o irmão não mais existia. Manolo deveria ter morrido e era isso que o casaco lhe dizia. Colocou a mão no peito como quem sente muita dor e chorou. Não havia conseguido cumprir a promessa que fez ao pai. Neste instante sentiu algo volumoso e duro por dentro do bolso do casaco. Enfiou a mão e retirou lá de dentro uma fotografia amarelada pelo tempo. Deveria ser do antigo dono do casaco. Mesmo com dor, alcançou os óculos na mesinha de canto e pode constatar que os modelos fotográficos eram ele, ainda pequeno, o pai e Manolo, sentados num banco de pracinha. Olhou para a esquina com os olhos rasos d'água e viu Manolo e o pai juntos e felizes.
Claudia Villela de Andrade clavill@prosaeverso.com
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