O CALDO BRANCO DA LUA

Cláudia Villela de Andrade




 

Era assim, o branco da lua derretia e chorava. Pingava sempre aquele caldo branco e quente. Quando ele caia no asfalto, aquela mancha grande grudava feito uma cola. Estatelada, melada, esquisita.

Era assim...

Em dias de chuva de verão, depois que ela passa e o céu fica limpinho, as estrelas correm em busca do banho da lua. O banho do caldo que cai e mancha a rua. As estrelas ficam rindo do encantado do grande satélite. O encantado chora e borroca a maquiagem. A chuva diz, “ A lua é boba! É dos enamorados”. E solta um raio longo se despendido por inteiro.

Na verdade a lua  sempre fala que para chorar basta um pouco.

Um pouco de... do...or, um pouco, de dor, um,  pouco de dor. E gagueira na voz. Ela sempre fala que para chorar basta gostar de algo ou de alguém e perder. E p...erder. E pe ..erder. E proprooo ..curar e na..não.. aaa..char.

 E ver que tudo foi inútil. E ver que o tempo passou de dourado a preto, feito a chuva de antes. E ver a água suja descendo das ladeiras. E ver que tudo não passou de um engano. Quanta ilusão! Coração desenhado a sangue não pinga. Seca e coagula.

A gente olha para cima e vê a lua. Ela chora. Solta o caldo. Ela chooo..ra. Solta o caldo em cima da gente e ele queima  a

pele  e  coça e a gente  grita que dói. Que arde. Que sufoca. A lua chora por nós. E a gente gaga...gueja seee..mmmm... parar junto com ela.

Que será de nós?

Olho pra cima e ela é careca. E grito com maldade na voz: - Careca, careeee...ca!.

Teve câncer. Caíram seus  cabelos todos. Teve câncer de tensão. De tanto ouvir reclamação. Teve câncer de somatização. Teve câncer de tanta fumaça que inalou do cosmo. Teve câncer porque não falou que amava alguém. Gaguejou e ficou calada. Engoliu o amor que virou câncer. Teve câncer e inchou a cara . A lua.  Caiu tudo.  O caldo não vira lágrima, pois é de espanto. De espanto que não vira água.  Lágrima é marca de sofrimento. Vira caldo branco que disfarça. A lua branca espanta. Só não espanta o que dói. O que dói não tem medo de caldo branco, nem de lágrimas. O que dói fica  dentro e vira câncer.

A estrela cai ! A ...estre...la...caiu dentro do caldo da lua branca. Nadou mas não teve jeito. Afogou-se. Quem passava olhava o corpo da estrela , boiando de cara pra dentro do caldo branco. “Vira ela! gritava alguém lá do céu. Vira ela que ela volta!”. Mas ela fazia com a mão , que não. Que não virasse não. Que ela queria beber daquele caldo branco, espantado, com câncer, doído e só. Ia bebê-lo inteiro pra sufocar bastante. Glut glut glut , até inchar a barriga de tanto e tanto e tanto. Será que assim pararia de gaguejar e poderia falar de amor sem transpirar e sem ter câncer ? Seee...rr...á ?

 

Cláudia Villela de Andrade

 clavill@prosaeverso.com

 

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04.10.2002