NOVO NAMORADO
Claudia Villela de Andrade

 

 

 

        Vou pintar o rosto e colocar salto alto. Vestido novo, pele macia. Sei que vou ganhar rosas vermelhas, caixa de bombons, perfume ou água de cheiro. Até um porta-retrato ou uma bijuteria. Não importa. Vou ganhar amor, satisfação...e isso é muito bom!

      Nossa noite será muito especial. Um jantar, uma dança, um motel. Nossos corpos   vão procurar caminhos, detalhes, aquecimentos. Aconchegos, carinhos, esquecimentos. Vamos ter alguns flashes, más lembranças... trocar os nomes,   nos desculpar.  Brincar como crianças na banheira de  hidromassagem.  Tomar banho junto, e esfregar os corpos com afeto. Vou me esconder do garçom.  Você vai fingir que esqueceu o dinheiro. Vou ser feminista e  querer pagar a minha parte. Vamos escutar som alto e dançar pelados pelo quarto. Ficar em pé na cama e arrancar os lençóis.  Vou querer levar a caixa de fósforos com uma dedicatória e a data no verso, junto com os brindes. Amanhecer amanhecido. Cara inchada, gosto amargo, pressa, atraso, valsa do tempo. Você liga o carro, eu me disfarço. Cabelo molhado, óculos escuro e na despedida um beijo de “até mais”.

      Em casa, me pergunto: arranjei um namorado? Ou um ficante, como diz a moda?

A pergunta mais ridícula que conheço, mais cafona e vergonhosa, me vem a mente. Tento disfarçar, pensar em outra coisa, mas ela está lá. Marcada, querendo a  resposta. Pego o telefone, inicio a discagem. Desligo. Que vergonha! Isso lá é coisa que se pergunte? Mas se não perguntar, como vou saber? De novo pego o fone, ouço a campainha e sua voz. Minhas pernas tremem, disfarço o papo, falo qualquer besteira que lhe faz rir. E a pergunta, aquela danada não sai. De repente, ouço o que quero. Meu Deus, nem acredito. Você foi mais corajoso que eu.  Perco a voz. Olho meu reflexo no espelho da sala e estou vermelha. Não sai. Nenhuma palavra sai. Desligo quase muda e percebo o meu ridículo. Ouvi o que queria dizer ou mesmo perguntar e estou com vergonha disso. Pareço uma adolescente. Meu Deus, o que o amor faz com e gente? Arranjei um namorado, que adorou a noite ao meu lado. Estou aqui feito boba, toda contente, contando vantagens, e me preparando para mais uma noite junto dele. Hoje, porém, escrevo um bilhete, que vou lhe dar, junto com outro presente: “Dia dos Namorados é todo dia, e espero que, em  nossa vida,  todos os dias sejam assim”.

 

 



“ Dia dos Namorados são todos os dias de  amor
 e espero que na nossa vida, 
 
todos os dias sejam assim”.

 

Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com


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04.10.2002