MEDO POR QUÊ?

Cláudia Villela de Andrade



 
Porque ter medo da vida a faz mais vagarosa. Vigorosa.  A noite fica comprida e o dia passa depressa. Atiça-se a monotonia. Corajosa é a morte quando espalha  poeira cinza. Pedra de tropeço, escondida debaixo das grutas. Fomenta a discórdia. Reluz, mas não é preciosa. Hora em que fica na espreita. Hora do calabouço. Do sabor salgado. Do vento estreito. Hora de gemer, rangendo os dentes. Medo do próximo instante. Do desmaio após a cachaça. Medo de cair na rua e morrer feito indigente, afogada em poça d’água. Deprimida, inconsciente. De jogar comida fora. De parir criança triste. Medo do castigo. De gerar inimigo. Da cruz que vira à meia-noite. Do altar que promete a cura, ora sagrado, ora violento, degenerado. Do dízimo maior que o salário. Medo da filosofia, do fundamentalismo. Da agonia afoita de quem goza apressado. Do terremoto, do vulcão, do raio, do alagado. Medo de falar e não ser retrucada. Do silêncio. Da sapiência. Das coisas que não servem pra nada. Medo de  sentir fome e não ter uns trocados. De engolir chicletes que gruda nas tripas. De comer pastel na rua e ter dor de barriga.  Medo da intriga. Do afronto ou da injúria. Medo da valentia. Medo de cachorro babando raiva no portão. Medo de ladrão armado. De ter o sexo violado. De choro seco,  sem lágrimas. Medo da hora  da raiva. De cuspir  maldade. Medo de  não  garimpar bem as  amizades. De  desabrochar dor na primavera. De decantar minhas mágoas. Medo de não saber  escrever cartas. De ser mal-interpretada. Medo de ser outono e ficar amarelada. Medo até de ter, porque ter, requer direito. Ter é responsabilidade. É habilidade. Ter  é soberano, porque quem tem, tem que saber ter bem e não  desperdiçar. Ter não é oco. Ter faz  eco. Medo é necessário como andar no escuro, em riba da nascente, na lua nova. O medo é frondoso e fareja o rumo. É esperto. Eu tenho medo do meu medo, porque dele não cuido bem. Falo, escrevo, oro no absoluto, mas não entendo dele. Nada. Coisa nenhuma. Sei que nasci na lua cheia, numa sexta-feira chuvosa. Mãe disse que era meia-noite, mas desconfio que ela só queria me dar temor. Assim, quem sabe, eu o deixava  de lado, só de má-criação. É que pra mãe, medo desatava nós, temente que era da santa.  Punha medo em tudo. O  maior medo não era da morte. Era do giro da  vida.

 

Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com

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04.10.2002