 Feliz Ano Novo!
Claudia Villela de Andrade Todos os anos, dia 31 de dezembro, à meia noite em ponto, levanto a perna esquerda e piso o chão de Paraty, com o pé direito. Há anos que só vou a Paraty passar o Ano Novo. Piso e pulo na areia da praia para ficar bem marcado o que quero. No primeiro pulo deixo o ano que se foi. No segundo, suplico pelo ano que está chegando. Se bebi um pouco, não toco em ninguém. Seguro em alguma árvore da orla da praia. Tocar nos outros também não é bom. Cada um com suas energias ( as que saem e as que entram ). Abraços e beijos, só depois. A seguir, pulo sete ondas e mergulho de cabeça sob a oitava. Pronto. As quizilas ficam no fundo do mar! Os pedidos são inúmeros. Um ano, fiz uma lista. Estava escuro e não consegui ler. Joguei ao mar o papel inteiro e pedi a Iemanjá que me atendesse bem direitinho. Promessas são inúmeras para o dia primeiro do ano novo. Pararia de fumar, faria dieta, deixaria de brigar à toa com os outros, rezaria mais, visitaria um Asilo uma vez por mês, começaria a caminhar de manhã cedo... que nada. Todo ano é a mesma coisa. Promessas, só duram uma semana. Pedidos, são feitos sem parar o ano inteiro. Todos os dia, todas as horas. Mas existe um detalhe importante que ultimamente tenho notado. A ansiedade está menor. Estou mais conformada com o mundo e com a minha sorte. Os pedidos agora são acompanhados de um " Se Deus quiser , se assim for sua vontade, se eu merecer". Coisas que antigamente eu não falava. Exigia do bom Deus que minha vontade fosse cumprida de qualquer maneira. E se isso não acontecia... coitado de Deus, era logo responsabilizado pelo meu azar. Até a forma de pedir mudou. Agora, dou com os ombros, falo baixo com ele. Os olhos se viram para o chão numa humilde atitude de conformismo , coço a cabeça, digo meigamente, " se o Senhor puder dar um jeitinho... bem que vou gostar, mas não precisa se preocupar, não tenha pressa, se tiver um tempinho, olha esse meu problema com carinho..." E assim vou caminhando pela antiga Paraty, vendo os fogos, pisando nas pedras, garrafa de champanhe embaixo do braço, gordinha, sem caminhar direito todas as manhãs, colesterol alto ainda. Pelo menos parei de fumar. Isso eu consegui.
Mas essa humilde atitude com Deus se chama maturidade. A gente vai entendendo que tem coisas que estão escritas mesmo e que , muitas vezes , são colocadas no nosso caminho para ser, por nós, degustadas, digeridas e excretadas. O nome disso é aprendizado. O que estaríamos fazendo mesmo aqui senão aprendendo? E como aprenderíamos somente com a felicidade ? Afinal o sofrimento edifica o homem.
Esse ano vou fazer diferente. À meia noite não vou tirar meus pés do chão. Muito pelo contrário, já é hora de deixar os dois bem fincados na areia. Vou abraçar alguém que estiver a meu lado, bem apertado. Para mim, não vou pedir nada. Vou apenas dizer que " pode mandar que eu traço". Também não vou prometer nada. Vou tentando fazer o melhor de mim nessa Terra, como sempre. Não vou mergulhar no mar depois de pular sete ondas, porque vai me resfriar e o ideal é que eu me cuide contando sempre com a realidade que se apresenta e ela me diz que estou ficando velha. Mergulhos no mar à noite... xiiiiii, nem pensar!
Claudia Villela de Andrade clavill@prosaeverso.com
www.claudiavilleladeandrade.prosaeverso.com Segundo Lugar no Concurso PROSA& VERSO Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo categoria Prosa A mid Auld Lang Syne, que você está ouvindo foi seqüenciada por Luiz Filipe Esteves
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