Fantasia de Noel

Cláudia Villela de Andrade
e  Rosane Villela

 



       


Não era para se saber no que iria dar. Simplesmente para se fazer, transparecer, trocar. O branco alguma coisa grafaria e nessa certeza, algo surgiria.

Um papel, borboleta de vôo impreciso, no casulo das só mãos. Distendê-las até onde as letras o permitissem e os olhos as seguissem. Um escrito do então agora no para sempre delineado.  Assim esperaria. O que viesse, lucro.
Pegou o cartão e profundamente respirou, esperando que a mente lhe ditasse o que escrever. E foi assim, num desejo de Boas Festas que tudo começou. 


Deslizou o lápis para dentro da roupa de um pequeno desenho de  Papai Noel . Rabiscou o cinto preto do bom Velhinho e resolveu apertá-lo mais, para que uma cintura  fina o emagrecesse. Não era possível. A imagem  estava perfeita. Ainda virou o papel de cabeça para baixo só para ver se no momento desse vira e desvira alguma idéia emergiria  de dentro da sua massa encefálica,  relatando assim ,  em poucas linhas o que realmente queria. O grafite  do lápis, assombraria, de vez,  o   branco  do papel inicial?

Talvez devesse começar com uma letra. Uma letra que lembrasse um som. Um som que fosse de uma música. Uma música que encantasse  o sentimento e pudesse, em pouco tempo, fazer-se entender completamente. Escreveu  um A, bem torneado, virando a perninha para cima,  como numa caligrafia antiga, lembrando a primeira professora na sua bendita luta em alfabetizar os pequenos . Quantas lembranças descabidas, fora de hora... Mas o que continuaria ? O que faria dali pra frente ? Seria um " a " de amigo, um "a" de amor, um "a você", simplesmente? Seria um " a"  de   " agora vou te contar..."

" Agora vou te contar.

Você, a escolhida ao acaso, num dedo apontado por sobre um velho catálogo de telefone. Seu nome não importa, mesmo ele num presente de Noel. Você, um sopro na janela de minha criação. O Papai Noel sorrindo, a cada ano mais velho e cansado, pedindo um pouco de compreensão. As luzes refletindo o vai-e-vem humano da consumação. O tempo calado em trabalho na correria das festas e, num prédio bem alto, o seu rosto torneado nas nuvens. Podes ver? Ali, em céu branco sorrindo arco-íris.

Falta-me agora. Onde poderei estar? Já sei! Em um dos presentes, talvez aquele ali azulado de esperança. Parece-me bom, nem grande nem pequeno, um pouco espremido pelos demais, é verdade, mas transpirando mudanças, de braços estendidos e as mãos abertas para a colheita de um ano melhor. E, por fim, 2002 chovendo neve despetalada de rosas.

Pronto. Agora é só enviar para você e esperar que aquela música que eu queria que alguma letra lembrasse, o fizesse, assim somente e tão simplesmente, através deste meu desenho que, prometo, será único e exclusivo para você .

Boas Festas!" 

Fico aqui querendo adivinhar a sua reação ao abrir o cartão. Vai pensar que alguém enlouqueceu e escolheu seu nome ao léu para desejar-lhe esse Boas Festas assim...meio que ...caboclo, tímido, fantástico. Tem até pedaço de nuvem dentro do envelope. Nuvem de   pétalas de rosas. Já viu neve assim ? Agora vai existir isso no mundo. Tudo está tão trocado que a natureza também vai se abastecer de diferenças para sobreviver. Quem não o faria ?  E no pacote estarei eu sorrindo. Perguntando se fico bem de azul enrolado num papel de seda.


Vai gostar de me receber ?     
Tem também um laço de fita branco. No pacote ? Não. No meu pescoço. Não puxe tanto. Pode me machucar. Já foi um sufoco ficar aqui dentro todo esse tempo. Vamos sorrir. Veja como vôo em rasantes de ternura e   imaginação. Já estou indo, empacotado para ser somente seu. Dentro da fantasia ou fora dela. Escrevendo ou desenhando. Seja um Noel ou apenas mais um Natal, respingo encanto no seu nome para poder viver.

No fim do cartão, enrolado nas artimanhas que a vida está me dando, posso escrever que eu te amo, mesmo que eu não possa fazê-lo realmente. Mesmo que você também não possa... é apenas Natal.


          

    Cláudia Villela de Andrade
e  Rosane Villela

clavill@prosaeverso.com


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04.10.2002