Enquanto o amor não passa

     
cláudia villela de andrade





    
É a lembrança o que mais causa aflição. O afeto perdido, os arrependimentos, o que poderia ter sido e não foi. As interrogações desencontradas de que se suportássemos mais nossos defeitos, a crise passaria sem maiores danos. Tanta incompreensão, falta de tato. Tanta impaciência!

     O tempo passa e a cabeça esfria. Vem a constatação do que era tão bonito se falássemos mais e brigássemos menos. De que  a possessividade poderia ter sido mais trabalhada sem ser deixada de lado (pois ninguém é de ferro), mas que fosse tratada de uma maneira mais natural e não causasse estragos irremediáveis. Mortais. Tudo isso aliado ao tempo que mostra a face da felicidade apenas quando ela já passou por nós, deixando a sua marca: a nostalgia.

    Enquanto o amor não passa e os rumos dos nossos passos são diferentes, todos os erros são catalogados. Mas já não há mais conserto. O tempo não volta. A lista dos defeitos apenas se alonga e o remorso na consignação do erro é fulminante. É voraz como o pecado mortal. Porém, é nessa hora que recordamos também as qualidades e a saudade é maior que o bom senso por alguns poucos e bons momentos.

    Achamos outros parceiros e as comparações são inevitáveis.  Nenhum está a contento para a substituição irrestrita. Um gesto, uma atitude, um acalanto... tudo tão difícil. A memória vira uma câmera de fotografia. Registra com todas as cores a ação do passado, num sem querer querendo, inconsciente... pois era  um outro modelo fotográfico. E lastimamos, sem consolo, no silêncio da nossa hipocrisia.

   Enquanto o amor não passa, somos escravos da própria alma desesperada. Ela nos chicoteia, nos aponta. É o mais cruel dos nossos carrascos. A inquisitora mais verdadeira. É o espelho mais terrível de se mirar por inteiro porque nele vemos nossas piores mazelas.

   Enquanto o amor não passa há uma luta insana entre a razão e a emoção. Ficamos zonzos,  olhando para os lados, porque o mundo inteiro  torna-se canceroso  e para as nossas  doenças   o único lenitivo já foi embora  há muito tempo. Escapou. Passou.

    Enquanto o amor não passa, outro também não vem. E o tempo nos desrespeita  carregando grandes momentos. Muitos desperdícios.

    Enquanto o amor não passa é melhor o recolhimento. A solidão. Talvez assim possamos entender integralmente o que houve e digerir nossos pedaços, grão por grão, lágrima por lágrima, num banquete solitário cujo o único convidado é o nosso coração.

   Enquanto o amor não passa... não ouça, não fale. Tão somente sinta saudade. Um dia, ela também passa.


 


Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com

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10.02.2003