COM JEITO PARA CANTAR

Cláudia Villela de Andrade

 


Passa a pena sobre a minha asa e canta uma canção de bico de sabiá, de rouxinol amanhecido, de quem sabe tudo e pia , pia, pia, enquanto eu escuto e sonho. Recita. Canta o dentro que molha o fora e abraça milhares de cotovias pelos galhos. Ramagem. Semente. Fertilidade. Canta o coração apressado. Músculo danado. Desejo que não se evapora. Canta as ilusões. Canta todas as bocas apertadas. Canta o gozo molhado, melado, gostoso que mancha o lençol sedoso.Canta qualquer canto. Até o canto calado. Canta a chuva, o vento. Canta a cicatriz. Canta a ferida que purga.Precisa, doída. Canta as folhas das árvores. Canta o assobio do vento-norte. Canta a lua-nova, o lobo, o atabaque dos exus, mas canta no compasso, no ritmo certo em que eu mato. No grito que eu ardo. No frio que eu passo. Canta o mel . O fel. Canta absolutamente as notas que invento. Canta o barulho do ar. O estalar . O chicote. Canta o tiro, o medo, o grito de glória. Canta na boca do estômago. Na boca da noite. Na boca maldita. No céu da boca. Na boca de todas as luas. Quatro ruas e muitas saídas . Caminhos e caminhos a rumar. Canta a infeliz desgraça das guerras. Os moços. O sangue. A falta de memória. Canta com voz de animal perdido. O gabiru aflito. O cravo da igreja. O coreto da praça. Canta o dó em forma de dó. Canta o mar aberto. A onda que afoga os sonhos. O chacoalhar da espuma . Canta a preguiça de virar as mãos na terra. Engole essa terra e sopra o pó no alto da serra. É sua a terra ! E berra!É seu o canto. Encanta! Espalha seu dom no tom do Si, do Mi do Fá. Ré é perda de tempo. Cospe no vento. Ecoa a voz nas pastagens e toca o berrante que alguém há de escutar, nem que seja longe. Bem longe ! De longe ele vem lhe buscar. Canta o barulho da porta que se fecha. Canta o recolher. Encolher tristeza é luto. Atributo do sentimento. Canta a boca aberta , sem dente, a língua branca, azeda de depois do choro. Canta o doce do beijo. O cabo de guarda-chuva acordado. Mistura, assim como faço. Rosa com alho que a máquina escreve e eu não paro. O piano. A caixa de fósforos antiga. A rima. A arma por cima da lareira . O fogo. A clareira. A chuva que desce da serra. Canta a menor estação e a nova era . A reza. Todas as canções. O fado. Agrada. Som do velho mundo. Canta o cosmo e a crosta. Canta a voz do tenor . Canta o fantasma. O abismo. O temor. O purgatório e o inferno. Canta a leveza de ser . Ou não ser. O perigo e o alívio. Canta o soluço e a lágrima. Canta a alma de quem trai e abraça. O afogado. O destrambelhado. Canta a miséria que ela é fera . É dinheiro. Cala o canto dos que resmungam e se zangam, eles estão fora do ritmo e não entendem nada de nada. Asas de pena branca. Girassol de prata. Ferreiro que grampeia os sentidos . Punhal, espeto, faca que corta ao meio. Partitura antiga . Bate-lata, clave, bate-hora, crava, bate-volta, crê, que a vida não tem tempo. Canta agora, com jeito, que o canto jamais foi pequeno.

 

Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com

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04.10.2002