 CHUVA NO MAR DE AMARClaudia Villela de Andrade Quando as rosas do vaso murcharem e todas as auroras tornarem-se cinzentas, lembre que o barco que vai lá, em alto mar, é o meu. Quando você quiser, a âncora será seu arrimo. Nós a içaremos e prosseguiremos viagem, e nenhuma outra história poderá naufragar sem antes provar de todas as nossas tempestades. Cada gota desta chuva será bem-vinda. Cada lágrima será enxugada. Cada toque, cada olhar, cada gesto, serão molhados pelo orvalho da noite porque para a escuridão, as estrelas são muito mais que candeias, assim como para mim, a luz só brilha se refletida em seu semblante. Nem sendo poeta faço melhor poesia do que aquela que está no canto vermelho dos seus olhos que agora choram. Nem escrevo palavras bonitas, em várias línguas, em verso ou em prosa, que caberiam dentro do universo do seu sorriso de gato acuado. Muito menos existe algum mortal que declame algo melhor que o seu nome. São palavras apenas dos sentidos. Por isso a água que pinga agora do meu telhado é apenas uma goteira de fresta de telha, que não inunda nada, nem afoga o meu desejo. O mar continua azul e o veleiro, ao vento, balança a bandeira da espera. A mesma flâmula paciente que o coração me ensinou a ter mesmo antes de encontrá-lo. Não há chuva no mundo, o suficiente, que leve meu barco a pique. Não há poema melhor do que a sensação de saber que, agora, você está sorrindo ao ler estas bobagens. Mesmo desacreditando em tudo, você ainda tem amor dentro de si, e sabe bem do que falo neste momento. Então, deixemos a poesia, o mar, de lado e vamos apenas aguardar a chuva passar. O cheiro de ozônio nos despertará para o tempo certo do amor e os guarda-chuvas serão fechados para sempre, ainda que o para sempre seja um lugar distante. Cláudia Villela de Andrade clavill@prosaeverso.com Leia mais sobre Cláudia clicando em seu nome ou em
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