
ASAS DA RAZÃO Cláudia Villela de Andrade As primeiras gotas de chuva começam a cair no meu telhado. Depois de toda seca, a Natureza agradece, humildemente, às nuvens carregadas que passam aqui por cima. Minha lembrança voa longe. Recordo, um rosto, com um meio sorriso , o semblante rejuvenescido pelos meus olhos que derramam generosidades próprias de quem gosta. Procuro na minha memória os fios e as tramas desse sentir mais incerto que surgiu nem sei de onde e que vai para lugar nenhum. Mas não me desencanto com isso. Quem quer ir para algum lugar ? Quero apenas ficar aqui mesmo, nesse exato lugar. Plantada que estou a tantos infortúnios e interesses de toda a ordem. Atormentada por passos desequilibrados, cômodos, necessários, apáticos, porém, reais. Responsabilidades que não posso simplesmente descartar como cartas de baralhos amassadas. Reflexo do que consegui como ser humano. Certo ou errado ? Não sei. Sei que é o que vai me deixar mais tranqüila, menos egoísta, mais coerente, menos complicada diante do mundo. E é diante desse mesmo mundo que me explico. Diante desse mesmo mundo que nunca se explicou pra mim. Fazer o quê ? Apenas sentir e correr para ver as andorinhas voando lá no alto. Ficar feliz em vê-las migrar a cada estação. Torcer para que seus vôos sejam totalmente livres de caçadores e gaiolas. Continuar no meu mundo solitário e aguardar o próximo verão, quando, retornarão em número maior anunciando a sobrevivência da espécie. Também sobrevivo às estações em vôos rasantes e incertos. Quantos caçadores e alçapões encontro pelo caminho, deslizando em ninhos e cantos de aves raras, araras azuis extintas , tamanduá, mico-dourado. Eu e mais um pouco da minha espécie, que respiramos às custas do amor. Só amor para compreender as vicissitudes dos pássaros e dos homens. Gaiolas de pensamentos despertos e cobranças profundas . Amor que nos guarda da revolta, das tempestades, dos gaviões. Andorinhas e pessoas numa mesma trajetória a favor do vento. Dores que foram proveitosas. Sofrimentos edificantes de tormentos e prazeres. Falsas felicidades bem no olho do furacão. Verdadeiras declarações de eterno amor, mesmo sabendo que até ele, como as andorinhas, também voará um dia . Vida que se vive a todo o momento, com as pessoas, sem chegarmos à conclusão do que realmente queremos do outro . E de nós ? O que queremos afinal ? Tanta coisa eu quis e não tive. Outras quis e conquistei. Agora não quero mais nada. Deixo-as fazer seus vôos e, se quiserem, seus ninhos no meu telhado, para se proteger das tempestades de verão. Serão bem-vindas! Entrem e se apoderem do meu telheiro. Façam ninhos, tragam vidas. Cantem, para que eu desperte mais contente! Sou um pássaro também. Porém, trago as asas cortadas, e o velho coração apaixonado.
Cláudia Villela de Andrade clavill@prosaeverso.com Leia mais sobre Cláudia clicando em seu nome ou em
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