Na cabeça o amor. E o amor é aroma. O amor tem cheiro de manhã de inverno. Tem perfume de gerânios na janela. Tem um olho com remela e outro atado ao sonho. Perdido. Vago. Tonto por entre as brumas do amanhecer. Redondo feito uma roda de viola com fogueira queimando a noite inteira.
Começo, meio, fim. Ninguém nunca começa um amor pensando no final. Amor não é assim. Com ele a gente está sempre no princípio. Renascendo. Sorrindo o primeiro choro. Corando ao primeiro riso. Morrendo de tanto gargalhar. Pousando em galho de laranjeira. Pisando em bosta e dizendo: — Que lindo!
Amor é coisa de veterano que já cansou de dar tropeço. Amor é desgraçado. É o assassinato de nós mesmo. Pior que um suicídio. È o crime perfeito. Nunca mais somos os únicos, nem o primeiro. Somos sempre o segundo. Primeiro, passa a ser o companheiro. É coisa de iniciante que vive iludido, dando com o costado na ponta da faca. E o sangue corre vermelho. Seca no corpo. Sibila, falta ar. Pára o coração, mas ele não desiste. Prossegue, insiste, corre todos os perigos dizendo que vale a pena.
Agora, estou aqui escrevendo tudo que todo mundo já sabe. Porquê? Pela mesma razão que você está lendo o que está cansado de saber. A razão maior é que é sempre bom ler para sentir. Concordar, discordar ou discutir. E eu escrevo para repetir tudo que sei e já aprendi. Será? Mentira grande, a minha. Mentira a sua também quando diz que já sabe tudo sobre ele. Mentira, mentira, mentira. Não sabemos nada. Continuamos sem saber das voltas que o amor dá por aí. Das mesmas voltas que ele dá na gente e que a gente nunca consegue dar nele. Continuamos peladinhos feito um bebê que vem ao mundo. Continuamos derretidos feito manteiga e propensos a virar meleca a qualquer tempo.