ÁGUAS DE MIM  

Cláudia Villela de Andrade

             

               

         O braço direito do rio deságua na artéria esquerda do meu peito. Sinto o sangue pulsando no momento exato do despejo. Nas veias, circula o líquido vermelho, com tanta intensidade, que a respiração fica ofegante, por vezes, até falha. Cansaço igual ao de andar nas trilhas das montanhas. Querer chegar ao cume não é só  questão de competência e sorte. É preciso bastante resistência e teimosia. Preparo físico que não tenho mais. Caminho e paro pedindo a Deus novos pulmões. Como era bom ter 20 anos!

         Meu coração envelheceu depressa. Mais rápido que a velocidade do ar que respiro, e  das pernas que caminho. Foram as pancadas, as tormentas, os enganos. Os ventos nas costas e o descompasso dos sustos.

         Os estreitamentos dos meus rios e os desmatamentos das margens causam enchentes irrecuperáveis às naturezas -  a  verde e a minha. A água passa, mas deixa rastros irremovíveis. Lágrimas bem encaixadas em cada ruga do meu rosto. Rio que desce ao encontro do oceano. Enorme mar, depósito de doce e sal, que faz qualquer pressão oscilar em todos os momentos da vida.

          Ainda que viva cem anos, não conseguirei estabelecer rotina para esses mergulhos que faço. Nem jeito de não me causar feridas. As rugas no meu rosto não param de aparecer e são, cada vez mais profundas. Lágrimas salgadas, rios doces, veias entupidas fazem parte do meu cotidiano.

           Navego em direção do mar. Logo abaixo, no final da curva do rio, desço a corredeira violenta. Caio na minha própria calmaria. Paradeiro final. Ali na frente a pororoca, a lua, a maré alta.

          O silêncio anterior ao fenômeno acontece ao mesmo tempo em que  pára o meu coração. Ao toque, em segundos, ele ensaia a  morte. Nada se move. Até os pássaros se calam. O silêncio das águas estabelece o fim.

         Mais à frente, uma surpresa inesperada da vida. O músculo dispara, o barco, antes à deriva, acompanha o vento e vence a pororoca. Vence a rotina e vê uma saída.  O que era velho renasce e as rugas são apenas sinais do tempo. Viram charmes.

     Alguém em seu barco me acena e me recebe em seu mar aberto.

 

Cláudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com

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26.07.2003