À mulher de ontem, de hoje
 e de amanhã

                             Claudia Villela de Andrade

 


Quantos poetas e escritores já falaram sobre esse ser especial: a mulher. Impossível contar.

Parece que sempre temos coisas novas a dizer: indagações, reclamações, reivindicações, constatações... Sim, temos. Sempre temos.

Sempre que pronuncio essa palavra - mulher - de imediato, lembro de  minha mãe e de minha avó. Sim, porque, para mim, mulher é colo, carinho, suavidade, cheiro bom,  leite de peito ,  cafuné na cabeça,  bronca também,  castigo, energia  (Nossa! Minha mãe tinha uma energia para puxar as minhas orelhas!), é trabalho,  luta,  respeito. Enfim, todas as coisas que fazem as mães, naturalmente. Mas veja como penso nelas: sempre dando algo de si. E eu, aqui, até para escrever essa crônica, depois de há muito enterrá-las, não consigo imaginá-las como um ser único, individual, solto no espaço, donas de si. Não. Ainda hoje, antes de dormir, peço-lhes um beijo, um acalanto, a proteção. Incomodo-as até em seus leitos eternos, no além. E continuo a pedir, a exigir, a chorar  e a querer resultados. Sim, de mãe e avó sempre queremos resultados. Elas devem ser infalíveis, perfeitas, disponíveis.  Quase um Deus. O fato é que  são deusas palpáveis em nossas vidas. Tangíveis. Concretos. Vivas ou mortas. Continuam com a mesma missão de nos proteger e realizar todos os nossos desejos.

Olho a mulher sob ângulo de filha e neta. Porém, sou mulher, e vejo como o mundo me olha. 

Assim, relembro minha avó, que viveu com minha família, até  morrer, aos 92 anos. Que enterrou a filha, atravessou duas guerras e várias revoluções,  passou pela tuberculose,  viveu na  senilidade  por muitos anos, caminhava lentamente e  sentava-se à beira da minha cama, às três da manhã, de camisolão branco, despenteada ...Dava-me  cada susto que, pelo amor de Deus!...  No entanto, só queria olhar para mim. Talvez relembrar sua juventude em meu corpo, em meu rosto. Suavemente,  passava as mãos pela minha cabeça, e eu, refeita do susto,  me sentia  feliz perto de minha avó  Zezeca, amadíssima senhora dos cabelos longos e brancos,  verdadeiro paraíso de infância. Pois, dizem as más línguas: avó é  muito melhor que mãe. É duplamente mais madura e conseqüentemente mais tolerante. Mais carinhosa, menos responsável e..cá pra nós, uma cúmplice de primeira grandeza!

Relembro também  minha mãe, que ficava noites acordada velando a doença dos filhos, vencendo o cansaço, esperando a dor passar. Que padeceu a perda do amor querido  e que resistiu o quanto pôde, sem ele. Que educou, trabalhou, fez dos filhos pessoas de bem. Enérgica, quando preciso. Carinhosa, quase sempre.

A  mulher,  sinônimo de intensidade. Antônimo de  fraqueza. Simplesmente mulher.

Quando  dá à luz, o sublime irradia sua força. Ilumina sua aura . A maternidade é o resultado da sua existência. É um de seus objetivos na Terra.

No entanto, se quiser  enterrá-la viva, basta que lhe morra um filho. Não existe dor pior. Pode-se perder um pai, uma mãe, um marido. Mas a perda de um filho é o mesmo que jogá-la na sepultura, ainda viva, e cobrir-lhe o corpo com terra. É pior que arrancar-lhe as pernas. É o enterro  do seu coração...

Mesmo assim, a mulher continua a sua resistência em prol dos outros filhos ou de outras pessoas. E o  nome disso é força. É valentia. É coragem. Que me perdoem os homens, mas eles são fortes para abrir um vidro de geléia.  Para  sofrer, chorar, levantar, lutar e prosseguir viagem...ficam  muito a desejar.

Essa crônica é para a minha linda avó, para   minha linda mãe e para a  de vocês também. Essa crônica é para todas as mulheres do mundo. De ontem, de hoje, de amanhã. De todas  as épocas. De todos os países.         

A mulher é o mundo. É a diversidade dos  sentimentos reunidos num mesmo elo. Sim, pois esse elo é igual para todos. Para a sua, a minha, a de quem quiser.

Seria injusto dizer que a mulher é um ser superior? Perguntemos aos homens. Até eles admitem isso. Sim,  são seres superiores, enviados pela espiritualidade para nos carregar em seus  colos sempre, até depois da morte. De pequeno à velhice. Enquanto nela houver átomo.

Então, amigo chego até aqui para perguntar: merecemos - ou não - o respeito  do mundo? Merecemos ou não mais dignidade?

Ainda se mutilam mulheres. Ainda cobrem seus  corpos. Ainda as escravizam. Ainda as rejeitam na política. Ainda lhes pagam salários menores que os dos homens. Ainda as espancam. Ainda lhes violentam a carne. Ainda lhes tomam os filhos.

Que nesse dia 08 de março, as reflexões sobre esse tema, ganhem consistência e apareçam, não nos jornais e revistas em aclamações inúteis,  mas na vida de cada um de nós como um objetivo a cumprir:

Devemos respeitar o ser que usa saia,  encosta a barriga no fogão,  muitas vezes sustenta  os filhos,  acorda cedo,  pega o trem,  trabalha,  chega tarde,  arruma a casa, acarinha,  cura o doentinho,  faz comida, lava a roupa,  estuda,  vai à Igreja, freqüenta reuniões, fala mil línguas, gera, sente dor, chora, ama, vive, e ainda é discriminada.

Começando a respeitá-las em casa já é um grande avanço da idéia que logo sai pelas ruas e ganha o mundo...

E ganha o mundo. Porque o mundo é que ganha com ela.

 


Claudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com



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04.10.2002