A arte sexual dos escritores

Claudia Villela de Andrade

 

        

         Contar uma história fiel ao registro da mente faz a nossa maré ficar alta, com entendimento, descomplicado. O fato concreto vai se tornando uma arte. Devagarzinho. Sem pressa do clímax.

       O sexo explícito não vale nada no palco do teatro, na rua ou no banco de trás do carro. História é sexo para o escritor. Dentro dos livros é que ele arde. Ele goza em cada linha. Apertado, como dizem os entendidos. De se lambuzar, como gostam os tarados. E o que é esse contar? E como contar?

       As preliminares se dão já na primeira frase. As letras vão escorregando, como quem atiça o tesão. O papel é a carne do momento. Há um longo beijo na boca. Mãos que acariciam a caneta, palavras que se formam através dos gemidos, frases que se juntam no voraz contato das línguas. A química está borbulhando. O ar, faltando e a grafia vai tomando forma como corpos que se despem.

      Escrever é arte transcendental. Gozar é arte carnal. Essa comunhão é perfeita e creio mesmo que a maior sensibilidade do corpo está dentro das orelhas. Esta proximidade com o cérebro faz o roçar da língua eriçar os pêlos. E quem escreve tem que escutar o barulho do mundo. Perceber os ruídos de todos os passos, das falas, do sofrimento e das alegrias. Há um arrepio involuntário no exato momento da percepção. É quando o coração dispara e ninguém é mais capaz de segurar as mãos que escrevem.

     No meio da história há o cansaço natural. Como fazem os orientais, o gozo é adiado para que mais tarde se multiplique. Toma-se fôlego. Ajeita-se na cadeira. Neste instante, mais sons são ouvidos. Agora, os de dentro. Os sons da alma que explode. Que quer ejacular. Que se contorce no silêncio da emoção. O ato segue seu caminho rumo ao infinito da necessidade. Da surpresa. Da criatividade.

    Volta-se ao trabalho como quem retoma o parceiro nos braços e mais beijos e abraços carinhosos fazem do recomeço a própria história. Ofegantes, caminhamos para o momento fatal. Até que a alma devora toda a carne e o transcendental mostra a sua verdadeira face. Gozar é sublime. Escrever é a própria alma.

 

Claudia Villela de Andrade

clavill@prosaeverso.com



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By Maytê Web Solutions

14.04.2003